domingo, 16 de janeiro de 2011

Os genes que abrigam o câncer


Chega ao Brasil o primeiro exame que faz a investigação completa das regiões do DNA ligadas aos tumores de mama e ovário. Um dos mais precisos testes de diagnóstico de câncer de mama e de ovário está disponível no Brasil. Uma parceria entre o laboratório Fleury e a Myriad, empresa americana do Nobel de química Walter Gilbert, oferece um teste capaz de detectar alterações em dois genes ligados a essas doenças, batizados pelos cientistas de BRCA1 e BRCA2. Amostras de sangue colhidas no país serão analisadas na sede da Myriad, em Salt Lake City, nos Estados Unidos.

Até agora exames identificavam alterações em apenas três regiões dos genes. Qualquer problema fora desses pontos era indetectável. "O novo teste é a forma mais segura de encontrar mutações", diz a bioquímica Cassandra Corvello, do Fleury. O serviço só atenderá pessoas maiores de idade e com marcante história familiar de câncer precoce.

A detecção pode acender um sinal de alerta. A paciente passa a fazer mamografias antes dos 30 anos e a acompanhar a situação dos ovários com atenção. Mas o preço do teste é salgado: R$ 8.900. Nenhum convênio médico se dispôs, até o momento, a reembolsar o valor do exame.

A análise completa de genes é a ferramenta mais moderna na prevenção de doenças hereditárias. Mas ainda apresenta limitações. Em alguns casos, os cientistas não conseguem entender se as alterações genéticas serão perigosas ou inofensivas. Uma pesquisa do Instituto Pasteur realizada na Holanda mostrou que 30% dos casos de câncer de mama hereditário são provocados por fatores não-identificados por esse exame. "Por isso as patentes da Myriad estão sendo contestadas na Europa", afirma o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. O Fleury se defende. Diz que emprega a melhor tecnologia disponível e estará pronto para adotar novos procedimentos. Por enquanto, o serviço só será oferecido na capital paulista.

Médicos e pacientes devem pesar o custo material e psicológico dessas avaliações. Um editorial recente da revista científica Lancet alerta os leitores sobre reações verificadas em pacientes depois do diagnóstico. Quem recebe o resultado negativo tende a desenvolver um falso senso de segurança. Relaxa em relação à prevenção e esquece que a maioria dos casos de câncer não tem como causa a herança genética.

Exames desse tipo são o fruto mais palpável do Projeto Genoma, que mapeou todos os 30 mil genes humanos. Dentro de uma década, haverá testes capazes de antever a eclosão de boa parte das doenças hereditárias. Resultarão na cura de moléstias que podem ser evitadas com remédios ou mudanças na alimentação. Em outros tipos de doença, só ajudarão a escolher o tratamento adequado. Num futuro ainda distante, será possível manipular os genes e alterar o rumo de males genéticos.

Fonte: Revista Época

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